janeiro 08, 2004

O bólide vermelho – II

(continuação)

Um carro buzinou. Meteu a primeira com rapidez. O verde dera um ar da sua graça e não havia tempo a perder. Cada minuto que passava contribuía com algumas centenas de carros para o pandemónio do trânsito matinal. Os carros seguiam colados uns aos outros, pois, à mínima folga, surgia, sem se perceber donde, um intruso a preencher o espaço. Nos entroncamentos, os pará-choques mediam forças entre si na batalha do “quem passa primeiro”. Os semáforos só eram respeitados “in extremis” ou quando algum agente policial circundava por perto. As marcas sinalizadoras no chão, quando visíveis, eram pura e simplesmente ignoradas. As verticais faziam parte de um conjunto de ornamentos de passeio pois não lhe era reconhecida outra função. O código da estrada era um objecto de museu e as regras de trânsito definidas segundo os conceitos e conveniências de cada condutor. A ânsia do passar primeiro dominava tudo e todos. E cada dia era mais difícil passar primeiro pois cada dia havia mais gente a querer, à força, fazer parte dos primeiros.

A fila de carros que, até aí, rolava lentamente, parou de súbito. Começaram a ouvir-se buzinadelas. Num crescendo rápido, tornaram-se num verdadeiro concerto desafinado e sem maestro. Pensou com os seus botões: Se fosse a Vera a vir aqui neste pandemónio ainda era pior para ela. Suspirou, aliviado daquele indisfarçável mal estar que sempre sentia por ser ele, invariavelmente, a trazer o carro.

Abriu por completo a janela e espreitou a razão da algazarra. Mais à frente, dois homens - actores duma burlesca comédia - gesticulavam com frenesim. Olhou melhor e logo compreendeu: a traseira de um carro tinha sido beijada com violência pela frente de um outro. Apáticos e talvez a saborear aquele beijo fogoso, os carros esperavam pacientemente que os respectivos donos os descolassem. Uma multidão de mirones começou a rodear os protagonistas do espectáculo e imediatamente choveram palpites sobre quem tinha ou não razão. O tempo e a pressa, porém, falavam mais alto e o comboio de viaturas, depois de algumas manobras mais ou menos complicadas, lá se foi desembaraçando dos espinhos que aqueles dois amolgados carros provocavam. Dia sem acidentes não é dia, pensou. Pois era, este percalço fazia parte integrante do quotidiano. A grande luta - a dele e dos outros - era para não fazer parte activa do espectáculo. E depois era aquele sacrifício de amealhar uns cobres para a aquisição dum carro novo. Aquela luta mensal com o orçamento para lá caber a mensalidade do “stand”. Aquela ginástica que se fazia para que, do ordenado do costume, sobrasse o dinheiro necessário para a gasolina do mês. E aquele fastio dos seguros, dos impostos de circulação, das manutenções e de um rol de outras coisas que apareciam quando menos se esperava. Ter um acidente e ser considerado culpado era, para muito boa gente, a facada fatal no orçamento familiar. Mas quem não quer problemas, ou não compra carro ou deixa-o quietinho à porta de casa. Embalado por este pensamento, mudou de faixa com rapidez, acelerou e meteu a quinta.

O trânsito fluía agora rapidamente e a confusão de há pouco diluíra-se como por encanto. Em poucos minutos desembocou no beco traseiro do edifício onde trabalhava. Agora era o estacionamento, outra dor de cabeça de todas as manhãs... Felizmente, um espaço minúsculo entre duas viaturas aguardava ocupação. Eram as vantagens dos pequenos carros, em qualquer buraquinho se arrumavam. Apressou-se a apanhá-lo antes que algum outro esperto por ali aparecesse. Olhou o relógio. Faltavam ainda mais de vinte minutos para picar o ponto na repartição, tinha tempo de sobra para a bica e o jornal.

*
A bica matinal tinha lugar marcado no café em frente e a compra do diário no quiosque do senhor Arnaldo. E a conversa do costume também, invariável e repetidamente despejada entre o contar dos trocos: Bom dia senhor Ramalho! Tudo bem? Aqui tem o seu jornalinho e passe muito bom dia. Enquanto saboreava o café deitou uma vista de olhos pelas gordas. Era uma atitude mecânica, sabia que não ia encontrar nada de novo, o que ele nem sabia era porque continuava a gastar dinheiro no jornal. As notícias relatavam os acontecimentos do costume. Confrontos nos países Árabes. A facção de um Mohamed qualquer cortara relações com o grupo de um qualquer Mustafad. Judeus e árabes continuavam a amar-se como o cão e o gato. Prosperamente - oh ironia sádica!... - a fome no terceiro mundo proliferava. De outras fomes, mais recatadas e discretas porque noutros mais civilizados países, não falava o jornal. As potências, cada uma por seu lado, continuavam a puxar a brasa à sua sardinha. A economia mundial, os States e o Japão, o Bundesbank e a União Europeia, os dólares e os marcos, tudo entre os altos e baixos do costume, nada de novo, mandavam os de sempre e o resto era conversa. Por cá, na nossa portuguesa província, a constitucional maioria, democraticamente eleita, dava cartas. Palavras e “bluffs”, aventuras no escuro mal dissimuladas, só conversa, só conversa... Quem pode manda, quem manda pode... E, no meio destas trivialidades, lá aparecia um crime passional que, com duas ou três facadas mal dadas, tinha levado outros tantos para a esquadra ou para o hospital. Deteve-se numa notícia. O Porto vencera na véspera o eterno rival da capital, o Benfica, numa eliminatória para a Taça de Portugal. Já sabia do acontecimento mais do que dizia o jornal mas voltou a ler de alto a baixo. Tinha de atirar uns piropos ao colega Cardoso... Aquela águia ferrenha devia estar em pólvora!... Quando o clube dos seus amores perdia, ninguém o podia aturar. E o que ele, Ramalho, se deliciava a disparar umas setazinhas envenenadas sobre o desgraçado!... E era ver o outro a defender-se como podia, do caseirismo do árbitro ao roubo de uma grande penalidade, dos fora de jogo inexistentes a penalizar a equipa, da cacetada que fizera sair em maca um benfiquista ao disparate do esquema montado pelo treinador... Tudo valia para Cardoso, desaires da sua equipa é que não. Por certo o iria encontrar à secretária, branco como a cal e com umas grandes olheiras, consequência da ressaca da noite anterior. Depois do jogo, era certo e sabido, fora afogar as mágoas numa qualquer cervejaria e, depois do bucho cheio, descarregara em casa as sobras da mágoa. Seria sorte a mulher de Cardoso, colega de trabalho também, não aparecer maquilhada com uns vergões desenhados pela mão do marido... Os filhos, adolescentes espigados e astutos, teriam por certo feito uma noitada extra para fugir à sanha do pai e só regressariam a casa depois deste ressonar. Brandos costumes os nossos!... Mas, afinal, neste mundo tão derramado de candentes problemas e complicados assuntos, isto eram banalidades supérfluas, pormenores sem importância nem peso... Mas que ele tinha pena do Cardoso, lá isso tinha. Não passava de um pobre diabo, essa é que era a verdade. Com um ordenado miserável duplicado pela mesma miséria que era o ordenado da mulher, com os três filhos na escola a estragarem um par de ténis por quinzena, quantas vezes não o tinha visto, encostado ao balcão do “snack”, a almoçar um copo de tinto e um ou dois pastéis de bacalhau... As refeições magras eram o dia a dia. Dinheiro para um móvel ou para uma roupa nova e decente não havia. Divertimento era palavra desconhecida no vocabulário de Cardoso. Perdão, existia essa palavra mas escrita de uma outra maneira: Futebol. Mais concretamente, Benfica, pois futebol era Benfica e o resto eram lérias. E dinheiro para o futebol tinha de sempre haver nem que mendigado aqui e ali. Por mais de uma vez tinha visto Cardoso esgueirar-se por entre as secretárias da repartição, a prometer mundos e fundos em troca de uns míseros quinhentos paus que lhe faltavam para a compra do famigerado bilhete para o “derby” do domingo seguinte. A ele, Ramalho, também já lhe viera com a velha história da doença da mulher ou com a dos livros da escola dos filhos. Só que ele não alinhava nesses contos. Por isso, com determinação, sempre retorquira: Oh Cardoso, quem não tem dinheiro não tem vícios! Tu já viste os milhares que esses gulosos não ganham por mês enquanto tu nem ganhas para comer decentemente? Andas a roubar da boca da tua mulher e dos teus filhos para engordar essa mafia. E Cardoso, cabisbaixo, voltava a sentar-se à secretária, perscrutando em redor na mira de encontrar um pato a quem comover com a velha história. Mas que ele tinha pena do Cardoso, lá isso tinha. Esta vida era cá uma roda, cá uma engrenagem!...

Dobrou o jornal com um suspiro inaudível, pagou a bica e dirigiu-se para a repartição. Entrou no amplo hall, austero e frio, suportado pelos enormes pilares de pedra, todos decorados de alto a baixo, estilo manuelino ou coisa que o valha, e onde qualquer sapato, ao assentar no chão, desencadeava ecoantes trovões. Esperou o elevador que vinha a descer, carunchoso e trôpego de muitos anos de trabalho e pouca manutenção, em contraste vincado com aquela arquitectura rebuscada. Com um profissionalismo devoto e os escassos cabelos artisticamente penteados, a disfarçar a calva, o senhor Leal, o ascensorista, despachava clientes e os habituais cumprimentos pelos vários pisos do edifício. Bom dia senhor Ramalho, bem disposto? Mais um dia, tem de ser... Quando as paragens eram muitas e a viagem demorava, lá esticava a conversa como podia: Então que me diz deste tempo? É só frio e geada, chuva da boa nem vê-la. Se continuar assim vai ser uma desgraça. Olhe o meu poço já quase se vê o fundo. Qualquer dia já não tenho água para a minha horta. Quando chegar o Verão nem quero pensar. Isto é que vai uma crise!

Pois era. O senhor Leal era o ascensor e a horta. A horta de que falava no ascensor, o ascensor de que descansava na horta. E que grande horta! Ele era batatas, feijão, cebolas, couves, fruta... Até um pouco de azeite e vinho, no sequeiro para lá da horta. Tudo só para a casa e alguns amigos, fazia questão de dizer. Trouxe-lhe uma couve portuguesa e uma garrafinha de tinto lá das minhas produções. Acompanhe-me isso com um bom bacalhau e diga-me depois... O orgulho do senhor Leal era proporcional ao tempo e trabalho que dispensava à horta. Sim, porque ele trabalhava que nem um mouro, dedicava àquelas terras as horas de descanso, fins de semana e férias. E todo o trabalho feito a poder de braços, pois lá na quinta não era viável um tractor, ele também não tinha dinheiro para tanto. Mas o resultado estava ali, traduzido na qualidade e sabor daqueles deliciosos produtos, só superados pelo orgulho e satisfação do próprio senhor Leal.

Entre duas paragens do ascensor, acrescentava, em jeito de desabafo: Mas também, se não fosse a horta, tinha lá vencimento para certas farturas? E sabia do que comia, e isso era o mais importante. Sim, porque ele era contra os métodos modernos de agricultura. Lá na horta dele só se utilizavam os estrumes dos velhos tempos, não entravam essas coisas de agora de pôr adubo químico para aqui, pesticidas para ali, injecções nos vegetais... E depois têm uma alface feita em meia dúzia de dias. Sim senhor, muito bem! Mas depois comem a dita alface, que sabe a tudo menos a alface, e vão parar ao hospital no dia seguinte. Ou então não vão mas ficam para aí, nem doentes nem saudáveis, a queixar-se que andam intoxicados e sem forças, com dor de cabeça e azias... Isso é tudo por causa dessas modernices da agricultura moderna, cheia de produtos com aspecto formidável, calibração segundo regras internacionais mas de sabor diluído e efeitos duvidosos para a saúde humana. As coisas querem-se segundo a natureza...

Mas olhe lá, ó senhor Leal, acha que, com os métodos que usa lá na sua quinta, a agricultura era competitiva? E o senhor Leal respondia com um sorriso bonacheirão: Olha a novidade!... Mas por causa dos lucros é que andamos todos doentes e cansados, é a factura. Acredite no que lhe digo, amigo, a vida nunca se deu contra a natureza, mais tarde ou mais cedo a coisa paga-se!...
(continua)

anamar - 1989

Publicado por vmar em janeiro 8, 2004 06:24 PM
Comentários

Começa a desenhar-se o retrato do automobilista
português. E diga-se que numa quase perfeita fotografia que infelizmente se espelha nos resultados dos acidentes de viação que se vão registando.

Afixado por: congeminações em janeiro 8, 2004 07:45 PM